Ultramar

ASPECTOS DA POLÍTICA ULTRAMARINA PORTUGUESA

Situação global em 1973 / 1974

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Publicado em 1977, «A Vitória Traída» é um livro que contém apreciações, tanto globais como de cada um dos Teatros de Operações da guerra do Ultramar, nos últimos anos desta, feitas pelos Generais Joaquim da Luz Cunha, Kaúlza de Arriaga, José Manuel Bethencourt Rodrigues e Silvino Silvério Marques.

Publicar-se-á na íntegra aqui, dada a sua extraordinária importância documental para a avisada compreensão e real conhecimento da situação em que se encontrava a defesa do país - e o Ultramar - nos últimos anos do conflito. Começamos pela «Situação Global», em 73/74, descrita pelo Gen. Silvino Silvério Marques.


I. IDEOLOGIA NACIONAL

Ainda que, no aspecto formal, imperfeitamente definida e sujeita a controversas hesitações no modo de aplicação1 (o que, até certo ponto, resultaria do ambiente existente, de profundas perturbações externas e internas) e certamente sofrendo desvios e erros na prática diária, o essencial da ideologia nacional baseava-se nos conceitos de nação multi-racial (e multi-cultural) e de país pluricontinental. Tratava-se de ideias, essas sim originais e exemplares (revolucionárias mesmo, a ponto de escandalizarem muitos) de conteúdo suficientemente profundo, humano e cristão, e, do ponto de vista histórico suficientemente enraizadas para mobilizar, até ao sacrifício, a devoção da generalidade dos portugueses. Assim aconteceu, uma vez mais, de forma praticamente modelar, até ao 25 de Abril, em todos os Teatros de Operações, em todas as províncias e para todas as etnias, durante os anos de guerra.

Através dos tempos, grandes espíritos portugueses2, dos mais diversos quadrantes políticos, ajudaram a formular, expuseram e aplicaram tais conceitos.

Pontos de vista diferentes de alguns intelectuais que inspiraram o pensamento de muitos revolucionários do 25 de Abril constituíram, nuns casos3, erros profundos de visão baseados em preconceitos arianistas e em conhecimentos presumidos, euforicamente, na época, como correctos e definitivos, quando eram apenas pálidas aproximações de uma realidade, ou aberrantes falsidades; noutros 4, interpretações discutíveis, e muito discutidas, da História de Portugal, que não teriam certamente a pretensão de impulsionar ou justificar o «auge da Involução», nem de fechar «o circuito de amplitude histórica» iniciado com a Conquista de Ceuta, e muito menos, em termos mais prosaicos e reais, de entregar o Ultramar português aos soviéticos e destruir a Pátria existente para tentar a perigosa aventura de construir uma nova Pátria ou de totalmente a perder!

Tais pontos de vista foram, em geral, expostos em períodos de crise nacional, com Portugal europeu a esvair-se em política, empobrecido, em marasmo económico e com o Ultramar esquecido, politicamente abandonado. A realidade dos factos, em poucas gerações, tornou-os ultrapassados. E os factos, nos últimos tempos, concretizavam-se: por um lado, em grandes províncias ricas, em pleno progresso, localmente bem administradas, com populações etnicamente diferenciadas, convivendo cada vez com mais espontaneidade; por outro, por províncias mais modestas, apoiadas com solidariedade dentro das possibilidades do conjunto, tudo procurando funcionar em sistemas de vasos comunicantes, de forma que ia evoluindo segundo a resultante positiva das controversas hesitações a que inicialmente nos referimos.

Infelizmente assim não o compreenderam os discípulos daqueles intelectuais que tomaram interpretações e críticas históricas, que a realidade ultrapassara, como fundamento de projecto concreto para a construção do futuro. Com esta base ideológica servindo de suporte e a pressão de grandes interesses estrangeiros desabados, uma vez mais, sobre o nosso Ultramar, desencadearam um processo que mal sabem agora como encaminhar. O país que ficou na Europa será já inviável. A população será já excessiva. O Transporte que era praticamente já inexistente, em termos sergianos, por livre e interessando multilateralmente territórios e populações nacionais, globalmente fixadas, ressuscita para o exterior, condicionado, na mão estendida e no oferecimento implorante de mão-de-obra disponível. Ressuscitado o Transporte, perdida realmente a Fixação, nasce a Diáspora abrangendo agora, além dos de aquém, também os de além-mar5… Tudo concretizado na tragédia dos refugiados ultramarinos e não somente deles. Em cadeia novos projectos despontam no horizonte e com eles a perspectiva, a ameaça, de fazer recuar ainda mais o rumo histórico nacional: em fórmulas ditas actualizadas, há quem preconize, sem receio de desencadear situações incontroláveis, o ressuscitar dos velhos reinos da Península…

Tão valiosos eram os conceitos que referimos, por tal forma dissolviam a ideologia do inimigo que este, durante muitos anos de guerra, os combateu encarniçadamente, procurando, sem êxito, destruí-los. Tratava-se de conceitos que se inscreviam com tanta naturalidade na alma e nos hábitos de todo o nosso povo que. mesmo aplicados com desvios e deficiências na prática de governantes, administradores e cidadãos, já nos últimos anos de guerra o inimigo desistira de nos chamar racistas para nos apelidar «apenas» de imperialistas e colonialistas. Imperialistas, nós os portugueses, tal como os soviéticos, os americanos… Supremo ridículo! Colonialistas, mas não racistas, embora fossem várias as etnias em presença no povo português e, no Ultramar, estivessem demograficamente desequilibradas. Quem sofria o colonialismo? Os africanos? Sem racismo? Como? Os europeus? Porquê?

Tanta importância se dava à verdade, à força, ao poder aglutinante daqueles conceitos que, logo após o 25 de Abril, a primeira grande manipulação feita ao cérebro dos portugueses por civis colaboracionistas e por militares revolucionários, consistiu em procurar destruí-los, difundindo, como ferrete infamante as ideias retomadas do inimigo de colónia, colonialismo, imperialismo, racismo, exploração, guerra injusta… Ao mesmo tempo, e em convergência, denegriram-se os grandes vultos históricos, heróis, artistas, estadistas, missionários, de qualquer forma relacionados com o Ultramar e a obra ali realizada. Tudo isto através de estribilhos, canções, desenhos, histórias que os meios de comunicação propagaram em verdadeira orgia acanalhada, demolidora da alma da nação. Foi assim também que se preparou o ambiente que havia de liquidar psicologicamente os refugiados que acabaram por ser expulsos do Ultramar, e que, senão fossem destruídos, representariam uma ameaça, pela sua capacidade, pela sua coragem, pelo ódio que a tragédia vivida lhes instilara.

Com base na ideologia que assentava naqueles conceitos essenciais, o estudo e a prática da luta foram permitindo construir uma doutrina de guerra subversiva, que acabou por tomar forma e resultar numa das mais completas que então se conheciam. Aos militares que, como professores e alunos, passavam pelos nossos institutos militares, enriquecidos profissionalmente com a experiência das missões desempenhadas nos Teatros de Operações, e a alguns civis que ali iam expor o seu saber e as suas ideias, se deve a formulação de um corpo de princípios, adaptado ao problema português, que representou um instrumento de valor na condução da guerra.

As disponibilidades financeiras do país e a sua situação económica iam consentindo lançar as estruturas necessárias, segundo a doutrina, com razoável prontidão e eficiência, que porém nunca atingiram o grau naturalmente desejado pelos chefes militares, para os quais os mais altos responsáveis civis de então não estavam suficientemente empenhados na solução dos seus problemas operacionais e logísticos. Identicamente, o equipamento ia aparecendo, embora quase sempre atrasado em relação às necessidades das tropas e especialmente às legítimas ambições dos responsáveis militares. Com o prolongamento da guerra, o enquadramento ressentia-se, em qualidade e quantidade, e a própria instrução do pessoal degradava-se. Esta circunstância corrigia-se, em parte, pelo recurso crescente a soluções locais, o que também se traduzia em valorização das províncias.

Eram dificuldades que preocupavam alguns responsáveis militares. Em fins de 1973 um grupo de Generais não deixava de as ter presentes quando pareceu surgir a oportunidade de uma reversão à hierarquia por parte do movimento dos capitães. Pensou-se, então, poder, por acção conjunta, removê-las, sem prejudicar a guerra que, pelo contrário, se desejava incrementar e encurtar, reforçando os meios e manobrando ao nível estratégico, em face da excelente situação de Angola.

De qualquer forma, muitas das dificuldades que se depararam não eram especialmente nossas. O inimigo também as sofria, numa medida que se imaginava, mas que somente o fim da guerra revelaria concretamente: em Moçambique e em Angola ficou-se surpreendido com a pobreza dos efectivos e a qualidade dos combatentes a que o inimigo já estava reduzido. O recurso a reforços de países vizinhos foi logo necessário, e até consentido e facilitado, para a ocupação inicial de Lourenço Marques e de Luanda …


II. PANORAMA ECONÓMICO-SOCIAL

Seria a situação económica e financeira do País, nos princípios de 1974, compatível com a continuação da guerra? Ninguém, cremos, disse ainda que, do ponto de vista económico e financeiro, a guerra estava perdida. Mas merece a pena fazer uma reflexão sobre o assunto.

Era de percepção generalizada que não só nos estávamos aguentando, mas que progredimos em todo o espaço português, durante os anos de guerra. Impulsionar o desenvolvimento constituía, de acordo com a nossa doutrina de guerra, urna das batalhas que procurávamos vencer em todo o país. E isso estava acontecendo: a ideia do «monumento ao terrorista» não representa simplesmente uma ironia. Correspondia ao sentimento do nosso povo de que, com o esforço e o sacrifício necessários à guerra, e apesar dela, todo o país se estava desenvolvendo e a vida da população ia melhorando.

Algumas informações menos correctas têm sido difundidas, a vários níveis, acerca do custo da guerra e do seu peso nas despesas globais de Portugal europeu e das Províncias de então. Consideramos de interesse fazer o ponto deste importante problema. Recorremos para isso a dados compilados em organismos oficiais (Conf. I Quadro). Como, infelizmente, com o 25 de Abril, os arquivos de muitos serviços foram desorganizados, se não destruídos, o que originou terem desaparecido documentos preciosos, não foi sem alguma dificuldade, e sem amáveis cooperações, que se obtiveram os elementos necessários6.

Quadro I

A soma das despesas com as Forças Armadas no Portugal europeu e no Portugal ultramarino, de 1961 (ano do início da guerra de Angola) a 1975 (ano em que ainda se pagaram despesas militares de qualquer forma ligadas à guerra) atinge, a preços correntes (col. 4), o valor de 180 milhões de contos (12 milhões de contos por ano, em média). Se não tivesse havido guerra, também se teriam feito despesas com as Forças Armadas entre 1961 e 1975. Estas despesas podem ser estimadas a partir do último ano de paz: o ano de 1960. Entre 1961 e 1973 (período de orçamentos e contas, regulares, normais e comparáveis), as despesas públicas, a preços correntes, de todo o país (Europa e Ultramar), cresceram ao ritmo médio anual de 10%. Admitindo que as despesas com as Forças Armadas, no mesmo período e até 1975, cresceriam, se não tivesse havido guerra e o Ultramar se mantivesse, ao ritmo de 6%7 ao ano, o seu valor, para todo o país, ascenderia (col. 3), entre 1961 e 1975, a 83 milhões de contos (5,5 milhões de contos por ano, em média).

Somente a diferença entre 180 e 83, ou seja, 97 milhões de contos, é pois imputável à situação de guerra. Isto é: apenas 53% das despesas com as Forças Armadas, ocorridas em todo o país (Europa e Ultramar), de 1961 a 1975 (ambos inclusive), são imputáveis à guerra da Guiné, de Angola e de Moçambique. A guerra, em termos de acréscimo das despesas com as Forças Armadas, custou a todo o país (Europa e Ultramar), a preços correntes, 97 milhões de contos, ou seja, em média, 6,5 milhões de contos por ano.

Em relação às despesas públicas globais de Portugal europeu, Guiné, Angola e Moçambique, as quais ascenderam, entre 1961 e 1975, a preços correntes, a 732 milhões de contos (col. 1 e col. 2), as despesas com as Forças Armadas, em todo o país, (180 milhões de contos), representam 25% daquelas. As despesas imputáveis à guerra (97 milhões de contos) representam 13,3 % das mesmas. Isto é: fez-se face ao acréscimo das despesas com as Forças Armadas resultantes da guerra desencadeada na Guiné, em Angola e Moçambique agravando de 13,3% as despesas públicas de todo o país.

A comparticipação da Guiné, de Angola e de Moçambique para as despesas com as Forças Armadas em todo o país foi, de 1961 até ao ano da «independência» de cada uma daquelas Províncias, de 28 milhões de contos (col. 5), o que representa 10% das suas despesas públicas, no mesmo período, a preços correntes, as quais ascenderam a 273 milhões de contos (col. 2). A comparticipação de Portugal europeu foi, entre 1961 e 1975, de 152 milhões de contos (col. 6), o que equivale a 33% das suas despesas públicas, que totalizaram 459 milhões de contos naquele período (col. 1).

A comparticipação para as despesas das Forças Armadas, em todo o país, de Portugal europeu, das Províncias em guerra, e do conjunto Portugal europeu, Guiné, Angola e Moçambique, evoluíram, de 1961 a 1973, em relação às respectivas despesas públicas, da forma indicada no II Quadro.

Quadro II

As despesas com as Forças Armadas foram pesando, de 1961 a 1968 e 1969, sucessivamente mais nas despesas públicas de todo o país e de Portugal europeu, atingindo então as correspondentes percentagens valores de 34% (col. 3) e 46% (col. 1) respectivamente. Após esses anos, aquelas despesas foram pesando sucessivamente menos, descendo em 1973 as correspondentes percentagens para valores de 23% e 29%8, respectivamente. Inversamente, as despesas das Províncias em guerra foram, no seu conjunto, suportando percentagens modestas mas com um andamento geral crescente das despesas com as Forças Armadas, que, de 7% em 1961, haviam atingido em 1973, 13% das respectivas despesas públicas (col. 2).

Resumindo: um esforço financeiro que se traduziu num suplemento de 13,3% nas despesas públicas globais de Portugal europeu, Guiné, Angola e Moçambique (despesas públicas que desde 1969 se repartiam com mais equidade por aquelas parcelas do conjunto nacional) e que, para Portugal Europeu se estava tornando, desde então, menos pesado, não se poderia considerar, em 1974, insuportável9. Isto abstraindo de que as despesas com as Forças Armadas constituíram também fonte dos mais diversos e importantes investimentos, entre outros, nos sectores da saúde, da educação, das infra-estruturas e do equipamento diverso, dos abastecimentos, dos transportes… Pode afirmar—se que a guerra foi excepcionalmente económica em despesas não rendíveis. Mesmo assim estava-se longe de extrair todo o partido possível das despesas, tanto na forma de as aplicar, como, especialmente0 na forma de geograficamente as distribuir. As opiniões que se expendiam sobre esse aspecto, com sentido construtivo, não deixariam de conduzir aos ajustamentos necessários e a resultados sucessivamente melhorados10.

Não seria pelo impacto económico-financeiro negativo que se perderia a guerra. Chegámos a Abril de 1974 com um volume de reservas ouro constituídas por 889 toneladas de ouro fino, que nos colocava no 6.° ou 7.° lugar entre os países do Mundo. O produto nacional bruto no Portugal europeu, a preços de mercado e a preços constantes de 1963, havia crescido 5,5 % por ano em 70/71, 8,7% em 71/72 e 11,4% em 72/73. O IV Plano de Fomento previa um crescimento anual médio de 7,5%. Em Angola, apesar da guerra, a população crescera de 4 680 milhares de habitantes em 1960 para 5 673 em 1970, atingindo o ritmo de crescimento de 1,62% por ano, naquele período, contra 1,54% e 1,03% nas décadas anteriores. O produto nacional bruto a preços de mercado, a preços constantes de 1963, crescera ao ritmo de 6% por ano, entre 1963 e 1973. O IV Plano de Fomento previa um ritmo de crescimento de 7% por ano. Em Moçambique a população crescera, no decénio 1960-1970, de 6 604 para 8 203 milhares de habitantes, ao ritmo de 2,23% por ano. A preços de 1963, o produto nacional bruto, a preços de mercado crescera anualmente, em média, 8%. O IV Plano de Fomento previa um ritmo de crescimento do produto de 10%/ano.

Infelizmente não se pode dizer que a «paz» trazida pelo 25 de Abril se não venha a perder pela situação económico-financeira em que mergulhou o país, que, como vimos, estava, em 25 de Abril de 1974, próspero e progressivo. O produto interno bruto, a preços de mercado e a preços constantes de 1970, teria crescido timidamente 3,8%, de 73 para 74, e descido de 3,6%, de 74 para 75, mantendo-se pois em 1975 ao nível de 197311, como se os anos de 74 e de 75 fossem inexistentes para o progresso do trabalho e da produção nacionais… Entretanto a população aumentou e, consequentemente, no seu conjunto empobreceu…

Dificuldades sentidas pelas populações na sua vida e, ou, grandes baixas sofridas na guerra poderiam originar tensões sócio-políticas insuportáveis. Estaria isso a verificar-se, no princípio de 1974, nalguma parcela do país? Quanto a empobrecimento e consequente baixa de nível de vida, ocasionados pela guerra, os números e índices citados mostram-nos que tal se não verificava.

No que se refere a baixas sofridas pelas Forças Armadas, o IV e V Quadros revelam a situação desde praticamente o início da guerra até 30 de Abril de 1974.

Quadro III

Quadro IV

Quadro V

Concluímos do V Quadro que, para defesa do Ultramar, no conjunto dos Teatros de Operações da Guiné, de Angola e de Moçambique, na guerra de 1961 a 1974, em cada 100 dias e em média (col. 5) morreram 80 homens das nossas Forças Armadas12 em combate e 75 por outros motivos: foram feridos em combate 316 e por acidente 369; destes 685 feridos em combate ou por acidente, cerca de 94 ficaram deficientes. Isto aconteceu num efectivo médio de 107 095 homens.

Choramos os nossos mortos e lamentamos os nossos deficientes13. Mas se uma Pátria não pudesse suportar as baixas registadas no V Quadro, em 13 anos de uma guerra pela qual passaram cerca de 800 mil homens das Forças Armadas (Conf. III Quadro, col. 7), a sua existência estaria irremediavelmente condenada14. Numa guerra clássica não nuclear, tipo de guerra para a qual as Forças Armadas (e a Nação) devem estar moralmente preparadas, e que poderá ser uma fase de uma guerra de amanhã, para igual efectivo médio de 107 095 homens, o mesmo número de mortos e de feridos em combate teria lugar, segundo os índices da II Grande Guerra, ao fim de sete meses de guerra…

Também para defesa do Ultramar15, interviemos na Guerra de 1914-18. Batemo-nos em França, no Sul de Angola e no Norte de Moçambique. Embarcaram então para França 57.000 combatentes, e para a Africa 32.000 a que se juntaram 25.000 africanos ali recrutados e instruídos, tudo num total de 114.000 homens em armas. A guerra, para nós, durou praticamente 2 anos. O número de mortos sofridos foi de 7.908 e o de incapacitados de 14.88416.

A avaliar pelo número dos nossos mortos em combate em permilagem dos efectivos (Conf. VI Quadro), a guerra atingiu para o conjunto dos três Teatros de Operações, uma agudeza máxima em 1966 (2,69 mortos por mil combatentes). Esta permilagem diminuiu depois continuamente até 1973 (1,83 mortos por mil combatentes). Em Angola, desprezando os três anos iniciais de guerra, por se não dispor de valores de efectivos, de total confiança, o ano de 1964 foi o mais agudo (2,21 mortos por mil combatentes); em 1968 há um novo agravamento com 1,74 mortos por mil combatentes. Depois a situação melhora sucessivamente, chegando-se a 1973 com 0,64 por mil combatentes: o número absoluto de mortos naquele ano foi apenas de 41 contra 115 em 1968…

Quadro VI

De qualquer forma, dir-se-á que, com ou sem impacto sócio-político justificado, parte da camada mais jovem do quadro permanente das Forças Armadas claudicou e desistiu de lutar. É cedo para conhecer as razões profundas dessa atitude. Mas não foram os mais provados pela guerra que fraquejaram. A medida em que, nesse comportamento, pesou a acção de revolucionários ao serviço de interesses que não eram portugueses, de alguns elementos ambiciosos do poder, do posto, do cargo, de frustrados nos foros privado e profissional, não está ainda completamente averiguada e só indícios a revelam. As armas e os serviços a que pertenciam muitos dos jovens do quadro permanente das Forças Armadas que se negaram a combater pela sua Pátria, apesar dos seus juramentos17, a que foram infiéis, não os identifica, como dissemos, com os mais sacrificados. Pelo contrário, muitos dos mais radicais revolucionários do quadro permanente provinham de ramos não essencialmente combatentes das Forças Armadas: - Engenharia, Transmissões, Cheret, Administração Militar, Armada (elementos embarcados). Será interessante fazer a lista dos revolucionários militares e carregá-la com o período operacional desempenhado e local onde, o serviço prestado, os louvores e condecorações recebidos ou não recebidos (comparados com os de camaradas não revolucionários em situações idênticas), o cadastro académico e disciplinar a partir do ingresso na Academia Militar (ou no Colégio Militar, para muitos), as frustrações privadas e oficiais conhecidas, as campanhas anteriores (particularmente se se trata ou não de traumatizados pelo colapso de Goa). Ter-se-ão grandes revelações.

Os números de faltosos, compelidos, refractários e desertores18, durante os anos de guerra e imediatamente antes e depois dela, não puderam ser obtidos com exactidão. Os que estivemos ligados aos problemas da guerra sabemos que tais números foram, e continuam a ser, empolados por forma verdadeiramente escandalosa, com objectivos que estiveram e estão à vista das pessoas conscientes e sérias do nosso país.

No VII Quadro resumimos os elementos que pudemos obter, no que se refere ao contingente geral de Portugal europeu.

Quadro VI

A análise do VII Quadro mostra que no período da guerra (1961-1973) a percentagem dos faltosos em relação aos incorporados (col. 1 ) [oi bastante menor (29%) do que antes e depois da guerra (40% e 49%, respectivamente). O mesmo aconteceu relativamente a percentagens de compelidos e refractários (col. 2): 2,1% durante a guerra, 2,8% antes e 3,3% depois. Por outras palavras: por cada 100 indivíduos incorporados nas fileiras, havia 40, entre 1958 e 1960, 29, durante o período da guerra, e 49, após o 25 de Abril, que tinham faltado à Junta de Inspecção na época própria; por cada 1.000 indivíduos incorporados, 28 entre 1958 e 1960, 21, durante a guerra, e 33, após o 25 de Abril, não compareceram na Junta, na época da incorporação, ou, sendo aptos, não se apresentaram à incorporação.

O número total de compelidos e refractários do contingente geral de Portugal europeu, durante os anos de guerra, foi de cerca de 17.250, numa média anual de 1.327. Se não tivesse havido guerra, e o número de incorporados se tivesse mantido no nível de 1958-1960 (hipótese teórica, e desfavorável, pois as necessidades, mesmo na ausência de guerra, não teriam deixado de crescer), o número de compelidos e refractários, no período 1961-1973 teria sido da ordem dos 9000. Isto quer dizer que somente 8.250 homens fugiram à guerra antes da incorporação. Em cerca de 1.140.000 indivíduos recenseados entre 1961 e 1973, dos quais foram incorporados cerca de 820.000, a situação de guerra levou cerca de 8250 a fugir à incorporação, o que representa 7 em cada mil dos recenseados, ou 10 para cada mil dos incorporados…

Os números relativos a oficiais e sargentos do quadro de complemento (milicianos) não se puderam isolar. Têm talvez expressão ligeiramente menos favorável que as médias referidas. Mas sobretudo incluem vergonhosos exemplos de filhos de famílias conhecidas…19

Não foi possível conseguir elementos relativos às províncias ultramarinas. O conhecimento directo das circunstâncias permite-nos afirmar que a situação, se algo diferente, o não era para pior20.

Quanto a desertores apenas obtivemos os dados relativos aos 3 Teatros de Operações, de 1961 a 1969, que constam do VIII Quadro. Não há motivos para supor que as médias se tenham alterado posteriormente, até porque do ponto de vista de mortes em combate, e de esforço financeiro, o período de 1961 a 1969 é, como vimos, o mais agudo. Sendo assim, o número de deserções verificadas nos 3 Teatros de Operações, que até 1969 foi de 103, teria sido até final de 1973 de 181. Isto para um efectivo médio de 107.095, numa guerra que durou 13 anos (1.392.000 homens X ano).

Quadro VIII

Constitui uma honra para a Nação, e para as Forças Armadas, verificar o procedimento excepcional traduzido pelos números apontados. Deve ser motivo de legítimo orgulho saber que quanto a faltosos, como a compelidos e refractários (e certamente a desertores de Portugal europeu, pois se trata de situações que estatisticamente se acompanham), os índices relativos ao contingente incorporado melhorou, durante a guerra, relativamente ao período anterior a 1961 e posterior ao 25 de Abril. Em particular, e no que se refere a desertores em campanha, os número e índice apresentados, traduzem um comportamento que se julga sem paralelo no Mundo21. Tudo afirma uma atitude que mede bem o grau de adesão do povo, de todas as etnias, chamado às fileiras, à linha tradicional, histórica, da defesa do Ultramar22. Que extraordinário e desonroso privilégio ser-se compelido ou refractário, entre 8.250, numa incorporação de 820.000 homens ou ser-se desertor em campanha, entre 181, de umas Forças Armadas que, em campanha, foram servidas por 800.000 homens!

Sem outros comentários, pensamos que a situação sócio-económica, vivida no princípio de 1974, fica lapidarmente definida na opinião que nos foi manifestada por um dos mais importantes militares-políticos do 25 de Abril, e também um dos mais sinceros e espontâneos, pouco tempo antes da eleição presidencial, na altura em que ainda ocupava lugar cimeiro nas estruturas governativas do país: - o 25 de Abril teria tido lugar na pior altura possível [nota do autor do blogue: o Gen. revelou, sete anos depois, quem era a personagem a que aqui se refere num artigo para o Semanário de 18 de Abril de 1984, aliás baseado nesta mesma obra: trata-se do Almirante Pinheiro de Azevedo]. Mercê do lugar cimeiro que ocupava esse importante político e revolucionário, encontrava-se em condições de conhecer e avaliar em que medida o país estava então a ser catapultado para o progresso. Se ele e os seus companheiros, revolucionários do 25 de Abril o tivessem sabido oportunamente, a Revolução teria sido adiada, ou não se faria. De qualquer modo ter-se-ia chegado a uma plataforma com o Governo daquele tempo23


III. POSIÇÃO DIPLOMÁTICA

Qual a situação no campo da diplomacia e política externa de Portugal no princípio de 1974? Contaríamos com inimigos por todo o lado, e estaria, nesse campo, a guerra perdida como o têm apregoado políticos tornados importantes, que então se encontravam refugiados no estrangeiro, em contacto com o inimigo e dando-lhe colaboração? Ou esse ponto de vista resulta apenas de uma informação evidentemente limitada e de uma visão naturalmente tendenciosa da situação, a acrescer à necessidade de justificar por variadas vias a chamada «descolonização»?

Vamos, sucintamente descrever a situação que se vivia no princípio de 1974 no plano multilateral das relações de Portugal com a ONU e a NATO e no plano bilateral das relações de Portugal com alguns importantes países24.

Vejamos o que se passava quanto à ONU e à NATO.

Depois das resoluções básicas votadas nos fins da década de 1950 e nos primeiros anos da década de 1960, as Nações Unidas haviam atingido, em relação a Portugal, um ponto morto. No âmbito da 4.ª Comissão da Assembleia Geral, haviam sido aprovadas as resoluções mais extremistas: nem a Comissão, nem a Assembleia podiam ir mais além. Uma só medida poderiam ainda votar: a expulsão de Portugal da Organização. Mas neste ponto as delegações afro-asiáticas estavam profundamente divididas. Esta divisão tornava-se aparente em relação àquele problema, mas no fundo reflectia toda uma divisão quanto à política portuguesa. Com efeito, esse abismo entre as delegações africanas resultava do critério de apreciação de Portugal em África. Para alguns países africanos o statu quo português em Africa não deveria ser alterado (pelo menos nas décadas mais próximas) porque: constituía um obstáculo à penetração imperialista (de russos e americanos): representava possibilidade de desenvolvimento técnico e económico para a África Meridional; tomava politicamente mais aceitável (em virtude do nosso multi-racialismo) uma gradual situação de descompressão em toda aquela área; significava factor de apoio a certos países africanos contra pressões exteriores: não causava receios dado que, se Portugal era suficientemente forte no plano militar para se manter, não o era para implicar qualquer perigo. Este ponto de vista era, pelo menos partilhado pelos seguintes países: Zâmbia, Malawi, Suazilândia, Lesoto, mesmo Zaire, entre os países vizinhos: e pelo Senegal, Costa do Marfim, Quénia, Serra Leoa e talvez outros. Em posição oposta estavam os países extremistas, que advogavam, evidentemente, uma atitude drástica. Mas aquela divisão apenas porque existia, enfraquecia o bloco africano: com o desejo de não a tornarem ostensiva, ficaram os países africanos paralisados.

Se no âmbito da 4.ª Comissão e da Assembleia não era possível ir mais longe contra Portugal, no Conselho de Segurança isso era viável. Mas aí jogavam outros factores: a cisão entre as grandes potências. Teoricamente o Conselho poderia tomar uma decisão extrema: declarar guerra a Portugal e enviar uma força militar internacional. Na prática nunca o poderia fazer: porque se essa medida fosse tomada em condições favoráveis à União Soviética, enfrentaria o veto da Inglaterra, França e Estados Unidos: se tomada de forma favorável a estes últimos países, teria o veto soviético: porque as experiências anteriores das Nações Unidas na matéria haviam sido desastrosas: porque as Nações Unidas, ainda que o desejassem, não tinham recursos para o fazer.

À luz do que precede, tudo o que pudesse ser tentado contra Portugal era marginal e periférico. Audição de peticionários, reconhecimento de governos no exílio por alguns países ou mesmo pela ONU, apenas poderiam pesar e revestir-se de importância e virtualidade política se e quando Lisboa resolvesse que eram mais importantes os «slogans» internacionais e os interesses alheios do que os interesses portugueses ou do que o carácter prioritário da soberania nacional e os princípios teóricos, legais e políticos em que esta se apoiava. Quer dizer: quando a política portuguesa passasse a ser a política de outros.

No âmbito da NATO e ao nível de governo, a situação era, em princípios de 1974, de compreensão e, nalguns casos, de apoio. Há que pôr de parte, evidentemente, as atitudes demagógicas de alguns países como a Noruega, a Dinamarca ou o Canadá; a sua posição era materialmente irrelevante. No mais havia a compreensão silenciosa e um apoio sub-reptício da Inglaterra; a compreensão e já a aceitação e um apoio larvado dos Estados Unidos: e a aprovação e o apoio bilateral explícito e concreto da França e da Alemanha Federal. Tudo isso se fundara em dados estratégicos e políticos: começava já nessa altura a surgir a visão, que se tem grandemente acentuado depois, do desequilíbrio de forças que resultaria para o Ocidente da perda de posições portuguesas no Atlântico Sul e no Índico. Essa visão levava já então a considerar os perigos que adviriam para a rota do Cabo, para a América Latina e para o acesso ao Golfo Pérsico, se os Estados Unidos e a Europa deixassem de possuir zonas de apoio na África Austral.

Neste sentido, a Assembleia dos Parlamentares da NATO havia aprovado, já em 1972, um relatório25 salientando aquela situação e os riscos que resultariam se os dados políticos e estratégicos fossem substancialmente modificados na África Meridional.

Analisemos agora as relações bilaterais com alguns dos mais importantes países.

Depois da hostilidade durante a presidência de Kennedy, o governo americano, sob Johnson e Nixon, revelou crescente cordialidade para com Portugal: além dos perigos acima referidos, e como consequência dos mesmos, estavam em causa a base dos Açores, a importância decisiva de Cabo Verde, a baía de Nacala, etc., que muito preocupavam a Força Aérea e a Marinha dos Estados Unidos. A reunião Nixon-Pompidou na Terceira reflectiu um pouco aqueles factos.

Embora publicamente não fosse ostensivo, era decidido, no plano bilateral, o apoio que nos era dado pela França e pela Alemanha Federal: fornecimento de armamento, sem querer saber do seu destino e uso; facilidades de crédito: apoio político e diplomático junto de outros países (designadamente os próprios Estados Unidos). Os substanciais créditos concedidos para a construção de Cabora-Bassa (a cuja realização também concorreu um consórcio americano e outro inglês, ambos com a aprovação dos respectivos governos), constituíram, além de apoio político em face da oposição de alguns países africanos àquela obra, também uma prova de confiança.

Apesar de na Inglaterra ser trabalhista o governo da altura, e não obstante os ataques de um sector da imprensa, o apoio que nos era concedido traduzia-se em facilidades de crédito, no suporte que a posição portuguesa recebia na EFTA e noutras organizações internacionais.

A própria posição do Brasil mudara inteiramente depois da revolução de 1964. A visita do Presidente da República do Brasil a Portugal, em 1973, foi prova irrefutável disso.

Também em Africa, à parte os extremistas indiferentes ou hostis, os países moderados se aproximavam progressivamente de Portugal. Tínhamos relações normais com o Malawi, Lesoto e Suazilândia e relações de facto com o Zaire e a Zâmbia que, de vez em quando, eram visitadas por missões portuguesas. Chegou a estar aprazado um encontro, em Roma, entre altos representantes de Portugal e de um importante país africano nosso vizinho.

Antecedendo a situação que rapidamente se descreveu, dia após dia, depois de 1961, os nossos estadistas e os nossos estrategas proclamaram o valor do Ultramar português para o Mundo ocidental e o perigo que representava o seu controlo por poderes hostis ao Ocidente. A nossa experiência histórica de nação e país espalhado pelos continentes, e o conhecimento pormenorizado do potencial geo-estratégico de que na realidade dispúnhamos, dava aos mais esclarecidos dos nossos responsáveis a percepção nítida daquele perigo. Dia após dia apontámos, sem erro, as forças que haviam erguido e estavam sustentando os movimentos inimigos. Em anos sérios da nossa guerra tentámos despertar o Ocidente, gritando que nos considerávamos sós, num combate que a todos interessava, embora orgulhosamente, como portugueses inteiros, que então praticamente todos ainda éramos. Está à vista do Ocidente a razão que nos assistia, agora bem concretizada nessa trágica viragem estratégica sofrida pelo Mundo, após o 25 de Abril.

Em face de tudo isto, o que é que explica então a festa que é feita, aparentemente sem justificação, nalguns meios internacionais do Ocidente, a certos dos mais importantes responsáveis pelo 25 de Abril e pelas suas consequências?

Em paralelo com o desprezo de que colectivamente somos alvo por parte de países europeus e africanos, companheiros de ontem26, duas circunstâncias muito contam para justificar o júbilo revelado principalmente por certos meios nórdicos, da Alemanha e dos Estados Unidos.

Por um lado, tem de se ter presente que, na complexidade da vida política e económica contemporânea, a estratégia de aproximação indirecta recorre cada vez mais a processos de maior e mais requintada subtileza. Ambições políticas e interesses económicos, velhos ou novos, que permanentemente pairavam sobre o Ultramar português, julgaram poder assim ser servidos e simultaneamente ser camuflados como nunca. A hipótese de nos substituírem sorria a certos meios político-económicos ocidentais e constituía evidente objectivo soviético. O risco de desencadear um processo que fosse favorável não aos próprios, mas aos soviéticos, ou que não pudesse ser controlado, ia sendo avaliado pelos mais sérios níveis responsáveis ocidentais e constituía um travão. Abandonado, ou entregue, com o 25 de Abril o Ultramar, deixámos as mãos livres aos grandes do Mundo para jogarem os seus trunfos, agora segundo métodos directos ou indirectos, que não eram utilizáveis quando o Ultramar era efectivamente Portugal e Portugal possuía um governo que efectivamente governava com patriotismo, coragem, dignidade e independência possível. Utilizando tais métodos, nunca se sabe quem alcançará, a prazo, a vitória e a conservará por mais tempo. Após a última Grande Guerra, os Estados Unidos foram levados pelas circunstâncias, e também pelo seu interesse, a tentar controlar o Mundo. Apesar do seu poderio militar e económico e da sua posição estratégica, a partir de determinado grau de dispersão, tiveram de desistir e de concentrar os seus esforços. Será a União Soviética capaz de superar os Estados Unidos, vencendo a sua posição de potência de terra, procurando apoiar-se essencialmente nos outros, objecto da «sua ajuda», não obstante os conflitos internos que surgem à superfície pela voz e acção de intelectuais e de jovens, e da debilidade económica de alguns sectores essenciais que parece intrínseca do sistema? Ou será vítima deste seu esforço, como sempre tem acontecido na História, em casos semelhantes e quando, além do resto, à dispersão corresponde a introdução de corpos estranhos, em organismos que acabam por reagir27?

Outra razão consiste em verificar que, com o 25 de Abril, se abriu caminho à comunização de Portugal, que esteve praticamente a verificar-se entre o 11 de Março e o 25 de Novembro de 1975. A comunização de Portugal muito facilitaria a comunização da Península, sobretudo quando a vida política, e até física, do Generalíssimo Franco estava no fim. A comunização da Península seria o princípio da então, talvez, imparável comunização da Europa. E este é um perigo que não pôde, nem pode, deixar de fazer estremecer os meios ocidentais. E daí que políticos que arvorem, com sinceridade real ou aparente, uma bandeira de combate a esse perigo, e que consigam convencer do seu poder, da sua decisão e da sua legitimidade, sejam festejados e apoiados como salvadores.

Enquanto os dois tipos de circunstâncias que se indicaram - serviço prestado com a entrega ou abandono do Ultramar e oposição à implantação do comunismo -, recaírem no mesmo grupo de pessoas, elas serão duplamente festejadas pelos meios ocidentais, como referimos. Desde que venham a envolver grupos diferentes o primeiro irá sendo naturalmente esquecido, pois os beneficiários potenciais da entrega ou abandono do Ultramar, no fundo, reconhecem que os serviços recebidos foram prestados à custa dos interesses da própria Pátria, o que é desprezível.

Gen. Silvino Silvério Marques


  1. Destas hesitações, que culminaram no governo do Dr. Marcello Caetano, são balizas, nos últimos anos, os livros Estratégia Estrutural Portuguesa, de S. Silvério Marques, Lisboa 1970, Na Hora da Verdade, de F. Pacheco de Amorim, Coimbra, 1971 e Portugal •e o Futuro, de António de Spínola, Lisboa, 1974. Esta última obra defendia, pela pena de um prestigiado general, a tese da Federação, durante muito tempo perfilhada pelo referido Presidente do Conselho. 

  2. Destas hesitações, que culminaram no governo do Dr. Marcello Caetano, são balizas, nos últimos anos, os livros Estratégia Estrutural Portuguesa, de S. Silvério Marques, Lisboa 1970, Na Hora da Verdade, de F. Pacheco de Amorim, Coimbra, 1971 e Portugal •e o Futuro, de António de Spínola, Lisboa, 1974. Esta última obra defendia, pela pena de um prestigiado general, a tese da Federação, durante muito tempo perfilhada pelo referido Presidente do Conselho. Entre estes, recordamos Afonso de Albuquerque, Padre António Vieira, Marquês de Pombal, Sousa Coutinho, Honório Barreto, Paiva Couceiro, Nórton de Matos. Em 1953, três anos depois de se haver candidatado pela «Oposição» à Presidência da República, e oito anos antes do desencadeamento do terrorismo em Angola, exortava, o General Nórton de Matos os Novos de Portugal nos seguintes termos: «Que a vossa principal tarefa seja o engrandecimento da Pátria, dignificando-a (…). Não deixeis que ninguém toque no território nacional. Conservar intactos, na posse da Nação, os territórios de Aquém e Além-mar é o vosso principal dever. (…) Se alguém passar ao vosso lado e vos segredar palavras de desânimo, procurando convencer-vos de que não podemos manter tão grande império, expulsai-o do convívio da Nação. (…) Tomai a peito o desenvolvimento paralelo dos territórios portugueses: - que a totalidade dos recursos e das energias nacionais seja aproveitada para a organização da Nação Una …». E proclamava: «A Nação é uma só, formada por territórios situados na Europa e noutros continentes (…). Não queremos parcelas diversas (…). Temos de tender para um território único, cujas partes se conservem sempre unidas apesar da distância que as separam !…)». Com a sua experiência de ultramarino e o seu coração de grande português aconselhava: «Deixemos, mais uma vez o peço, em sossego a cor e a raça e qualificativos que tanto destroem a Unidade Nacional, que todos agora tomámos a peito manter e fortalecer: - unidade de territórios, unidade de pessoas». (Norton de Matos, A Nação Una, Ed. Paulino Ferreira e Filhos, Lda., Lisboa, 1953. Inclui um Prefácio do Prof. Egas Moniz, prémio Nobel, e exposições feitas na Academia das Ciências de Lisboa em defesa do livro que concorrera ao prémio Abílio Lopes do Rego, pelo Prof. Egas Moniz e pelo Prof. Barbosa de Magalhães). 

  3. Assim aconteceu com Oliveira Martins que, a respeito de África, se mostra, em 1880, um visionário presunçoso e até ridículo. Na sua obra clássica O Brasil e as Colónias Portuguesas, Guimarães e Comp., 6.ª Ed., Lisboa, 1953, p. 262 e seguintes, afirma: «Não haverá, porém, motivos para supor que esse facto do limite de capacidade intelectual das raças negras, provado em tantos e tão diversos momentos e lugares, tenha uma causa íntima e constitucional? Há de certo e abundam os documentos que nos mostram no negro um tipo antropologicamente inferior, não raro próximo do antropóide, e bem pouco digno do nome de homem (…). Em todos estes sinais os negros se encontram colocados entre o homem e o antropóide (…). Não bastarão acaso essas provas para demonstrar a quimera da civilização dos selvagens, que foi o sonho vão dos jesuítas? E se não há relações entre a anatomia do crânio e a capacidade intelectual e moral, por que há-de parar a filantropia do negro? Por que não há-de ensinar-se a Bíblia ao gorila e ao orango, que nem por não terem fala, deixam de ter ouvidos, e hão-de entender, quase tanto como entende o preto, a metafísica da encarnação do Verbo, e o dogma da Trindade? (…) Concluindo, portanto, seja-nos lícito perguntar: E nós? E a nossa Angola? E Moçambique? (…) Ou devíamos, com franqueza, aplicar também a Angola o único sistema sensato a seguir com todo o resto: enfeudá-la a quem pudesse fazer o que nós decididamente não podemos; repetir o que se praticou com a Índia e esteve a ponto de se fazer em Lourenço Marques (…). Estar de arma - sem gatilho - ao ombro, sobre os muros de uma fortaleza arruinada, com uma alfândega e um palácio onde vegetam maus empregados mal pagos, a assistir de braços cruzados ao comércio que os estranhos fazem e nós não podemos fazer; a esperar todos os dias os ataques dos negros, e a ouvir a todas as horas o escárnio e o desdém com que falam de nós todos os que viajam na Africa - não vale, sinceramente, a pena». Esta posição de abandono enunciada, na visão e situação descritas por Oliveira Martins, em 1880, é invocada por Mário Soares, em abono das suas teses, em 1972, a p. 462 de «Portugal Amordaçado», ed. cit. 

  4. Pensamos em António Sérgio que, ao analisar (conferência pronunciada em Lisboa em Janeiro de 1925, Ensaios, t. II, 2ª ed., pp. 85-122) o que chama «política de Transporte» e «política de Fixação» frisa bem que a «doutrina da Fixação» não é uma ideia exclusivista: «não pretendo que desistamos de comerciar e exportar… o que se critica (ou condena) na política do Transporte não é o facto do Transporte nem a exploração do Ultramar: é o supor que tal política, por si só, com exclusão da outra, resolve o problema nacional… Não há que discutir as Navegações: eram fatais e foram impostas à nossa pátria pelas condições agro-clímicas da nossa terra, pela própria maneira como nasceu…» António Sérgio não deve ter voltado ao Ultramar depois de ter quebrado a sua espada de Oficial de Marinha com o advento da República. Se ali tivesse voltado nos anos 60, talvez o seu conceito de Fixação se actualizasse, alargado a toda a nossa grande Pátria, e certamente concluiria que se estava a caminho de um equilíbrio correcto entre a política de produção e a política de circulação. Infelizmente, na mente, na pena, e na acção dos seus discípulos, dos sergianos, as ideias de António Sérgio quanto à Fixação e ao Transporte, foram radicalizadas e sobrepostas ao derrotismo e arianismo de Oliveira Martins, em vez de se haverem actualizado e ajustado com as de Nórton de Matos, que além de conhecer bem o Ultramar se mantivera informado quanto à sua evolução, podendo afirmar, em 1953, no final de A Nação Una, ed. cit.: «basta o que deixo dito neste livro para mostrar como a Nação Una está surgindo cheia de vitalidade, de alegria e de entusiasmo por ver que lhe foi possível, neste meio século de vida nacional, avançar notavelmente a obra há tantos séculos iniciada…». 

  5. No editorial do primeiro número da revista «Critério» (Nov. 75), a qual retomou, em Nota de Abertura, o manifesto do número inicial da «Seara Nova» (15 Out. 21), na linha de Oliveira Martins, usando a terminologia de António Sérgio (ambos, entre outros, evocados no mesmo Editorial, e o seu pensamento radicalizado pelos sergianos, afirma-se com certa insensibilidade, em tom interrogativo e enigmático, embora concluindo com determinação e fé (rectangular, ibérica, universalista-maçónica ou marxista?): Em 25 de Abril de 1974 cessaram as consequências da conquista de Ceuta; retrocedemos ao 20 de Agosto de 1415. / Durante quinhentos anos fomos o país que sabemos que fomos. Hoje somos outro. Que país? / Estamos na agonia de um sistema económico e político que foi o do Transporte. Regressámos a um ponto de partida - a Fixação. / … Estamos no auge da Involução? Circuito fechado de amplitude histórica? / … Evitemos o anátema: hoje ou ontem. Vamos exigir o impossível: o amanhã.» Recordemos entretanto que em 1926: «A Seara Nova entende que a finalidade ideal da Nação, maior e profunda razão da sua independência, se liga indissoluvelmente à posse dos seus domínios do Ultramar…». «Seara Nova» n.º 68 e 69 de 9 de Jan. 26. Número especial organizado por Jaime Cortesão, com a colaboração, entre outros, de Armando Cortesão. Em «Seara Nova» - Antologia, Vol. II. Lisboa, 1972. Organização de Sottomayor Cardia, p. 14. 

  6. Tem-se a sensação de que as perdas sofridas pelo património cultural com a Revolução são enormes. Como em outras épocas de crise, na nossa História, os Museus e Bibliotecas do Mundo vão enriquecer-se à custa da incultura e da corrupção de alguns portugueses. 

  7. Este ritmo é inferior ao do crescimento do PNB a preços correntes no período referido, que foi, no Portugal europeu, de 11,5% por ano. 

  8. Em 1965, em período de paz, os recursos consagrados à Defesa, em França, representaram 20% do orçamento do Estado. De 1965 a 1975 baixaram a menos de 11%. O actual plano prevê um crescimento que atingirá de novo os 20% em 1982. (Em França, Forças Armadas. Para quê? Como?, Cor. Gomes Bessa, Revista Militar, nº 8-9, Lisboa, Ag.-Set. 76, pp. 493-494). 

  9. A guerra que sustentámos em três frentes envolveu, de 1961 a 1973, uma média de 107 095 homens de efectivo; e custou, por homem e por ano, cerca de 70 contos. A guerra do Vietname custou aos Estados Unidos 3348 milhões de contos, envolveu de 1964 a 1973 uma média de 289 489 homens das Forças Armadas US de efectivo e custou, por homem US e por ano, 1258 contos (Statistical Abstract of US 1975. US Department of Comerce, 510 e 528). 

  10. Sobre este aspecto, veja-se o artigo «Vencer a Lassidão» que, assinado por Manuel de Angola, escrevemos na sétima página do Diário Popular, de 12 de Jan. de 74. 

  11. Relatório do Banco de Portugal - Gerência de 1975 - 1.º vol., p. 60 

  12. As nossas Forças Armadas integravam portugueses de todas as etnias: ofereciam, lado a lado, um conjunto soberbo e inesquecível de africanos, europeus, asiáticos e seus miscigenados. Não se consideram as Forças Militarizadas, que tão importantes serviços prestaram às Forças Armadas, apenas por carência de elementos. 

  13. Estes, especialmente na medida em que a sociedade portuguesa ainda os não integra completamente e com justiça, e sobretudo quando perdem a legitima e orgulhosa dignidade deixando-se manipular e renegando a honra que lhes é devida.  

  14. Embora se não disponha de números certos quanto às baixas sofridas pelo inimigo entre os seus combatentes, um estudo feito em Moçambique em fins de 1972 concluía que sendo os efectivos do inimigo de 1/7 do das nossas Forças Armadas, os seus mortos em combate eram 20 vezes e os seus feridos referenciados 10 vezes superiores aos das Nossas Forças. 

  15. «Um ponto negro havia porém no horizonte da Nação: as ameaças que pairavam sobre o nosso domínio colonial… A intervenção de Portugal na Grande Guerra resultou exclusivamente da existência deste formidável perigo que impendia sobre as Colónias portuguesas» (Gen. Nórton de Matos, «A Grande Guerra e as Colónias Portuguesas», em «História da Expansão Portuguesa no Mundo», III vol., p. 427, Lisboa, 1940). 

  16. Os números citados são extraídos do estudo referido na nota anterior. 

  17. «Juro servir a minha Pátria e lutar pela sua independência e pela integridade dos seus territórios; respeitar a Constituição e as Leis do meu País; observar rigorosamente a disciplina militar; obedecer aos meus chefes; ser fiel aos princípios de honra do Exército Português e cumprir dedicadamente as missões que me forem confiadas, mesmo com sacrifício da vida». Este o compromisso tomado perante a bandeira nacional, por todo o oficial português e que, assinado, consta do seu processo individual. 

  18. De uma forma simplificada, são faltosos os indivíduos que faltam à Junta de Inspecção na época normal; são compelidos os faltosos que tenham faltado também à Junta da época de incorporação; são refractários os indivíduos aptos que se não apresentem à incorporação; constituem-se em desertores os ausentes sem licença por mais de oito dias consecutivos. 

  19. O comportamento de alguns pais - sobretudo de algumas mães, de famílias conhecidas - ajudou a empolar escandalosamente certos números e influenciou o clima que tornou mais propício o claudicar dos jovens do quadro permanente das Forças Armadas. 

  20. Até ao 25 de Abril, o inimigo praticamente não fez prisioneiros às nossas Forças Armadas. Embora o não possamos quantificar, o número de prisioneiros feitos às Forças inimigas e em especial o número de combatentes que se apresentou às nossas autoridades foi bastante avultado e inclui elementos político-militares importantes. 

  21. Com os índices verificados no Vietname para as forças militares U.S., o nosso número de desertores, para igual efectivo médio (107 095) e o mesmo número de anos de campanha (13), teria atingido os 32 850 homens. 

  22. A um Comandante-Chefe de Angola foi um dia perguntado por alta entidade dos Estados Unidos, que visitava a Província, qual a razão por que os soldados portugueses se batiam tão bem e não desertavam, uma vez que, no Vietname, as F.A. americanas se defrontavam, nesses aspectos, com alguns problemas. O Comandante-Chefe, com simplicidade e verdade respondeu: a razão está em que os soldados portugueses de todas as etnias se batem pela sua Pátria. Ao mesmo Comandante-Chefe foi solicitada, por militares estrangeiros deslocados a Angola, uma viagem de centenas de quilómetros, por zona que considerávamos relativamente controlada, mas com certo perigo. Fizeram questão, para nos pôr em dificuldade, em se deslocar por terra. O Comandante-Chefe acedeu. E forneceu-lhes uma pequena escolta constituída exclusivamente por tropa africana. Ficaram elucidados. 

  23. A esta opinião de um alto responsável é oportuno acrescentar as palavras do Ministro das Finanças do I Governo Constitucional [nota do autor do blogue: trata-se de Henrique Medina Carreira], na posse dos Vice-Governadores do Banco de Portugal, em 17 de Jan. de 77 ao referir-se à situação, dois anos e meio após o 25 de Abril: «Caiu a produção, caiu o investimento, caiu a taxa de poupança, caiu o valor das nossas disponibilidades de pagamento sobre o exterior. Subiu o desequilíbrio nas contas do sector público, subiu a inflação, subiu o défice de pagamentos (…); andamos a viver com aquilo que os estrangeiros produzem; no dia em que não tivermos mais reservas, não poderemos comprar o que hoje gastamos sem sentido nem moderação». 

  24. Utilizaremos elementos cedidos por um perito que viveu inteligente, corajosa e patrioticamente o problema e o conheceu, por dentro, como, talvez, nenhum outro português contemporâneo. 

  25. Este relatório encontra-se publicado na Revista Militar, n.º 5, de Maio de 1976. 

  26. Desprezo que tem contrapartida na vergonha que tantos sentimos e alguns, insuspeitos, já têm, com autoridade, confessado e na evidente e justificada desconfiança que causamos a aliados pelo nosso comportamento e pela incompetência que demonstrámos. 

  27. Virá a invasão marxista da Africa meridional a saldar-se num Vietname de sinal oposto? A acontecer isso será fruto de uma estratégia? Que hipótese importante a merecer a atenção de portugueses conscientes! 

publicado por Henrique
classificado sob 'Silvino Silvério Marques' , 'A Vitória Traída'