Ultramar

ASPECTOS DA POLÍTICA ULTRAMARINA PORTUGUESA

O Estado Novo e o racismo

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A propósito de um verbete na PortaDaLoja acerca de um artigo do jornal Público sobre o pretenso racismo do regime anterior a pretexto do recentemente falecido futebolista Eusébio, em que se afirma (no tal artigo) que o Estado Novo “contribuíra decisivamente para a disseminação de um racismo generalizado” , e muito embora já na PdL por várias vezes, incluindo esta, se desmonte esta cabal mentira; aqui fica mais uma achega, pois que nunca são demais.…

Trata-se do discurso de tomada de posse do General Silvino Silvério Marques como Governador-Geral de Angola, no dia 27 de Outubro de 1962, em Sessão Extraordinária do Conselho Ultramarino, com a presença dos vogais dos Conselhos Legislativos e dos representantes das Actividades Económicas do Ultramar; e publicado em livro em 1970.

Atente-se ao que lá se diz sobre Cabo Verde, sobre a política multi-racial portuguesa, ao facto de ser dito pelo Governador-Geral em discurso oficial; e pense-se como é possível um jornal publicar o que não passa, objectivamente, de uma mentira. Nem meia verdade, nem verdade deturpada: é somente mentira.


A Sua Excelência o Presidente do Conselho e a Vossa Excelência Senhor Ministro agradeço a confiança que mereci ao ser convidado para ocupar o cargo em que acabo de ser investido. Cargo que - mais uma vez o afirmo - se não deseja, se não pede, mas também, nesta hora, um português responsável não recusa!

Pondero quanto a tarefa que me espera vai ser árdua, e quanto as possibilidades são limitadas face a ela. Extraio dessa circunstância não qualquer sentimento de desânimo, mas a convicção de se tornar necessário generalizar a todos não ser de esperar outro milagre que não seja o resultado do trabalho quotidiano, realizado com os olhos fitos no interesse do País. E, na condição humana, ainda não encontrei milagre mais eficiente que esse - quando o trabalho é honrado nos objectivos e nos instrumentos; e visa, em continuidade, com convicção e persistência, fins sucessivos, adequadamente estudados, acertadamente seleccionados.

A mesma circunstância - tarefa árdua, recursos limitados - exige poder contar integralmente com a ajuda de Vossa Excelência, Senhor Ministro, e do Governo, da população e forças vivas de Angola, dos Serviços e das Forças Armadas. Ninguém, nenhum português, será capaz, neste momento, de recusar a quota parte de apoio, de sacrifício, de experiência, de saber, que se torne necessária e lhe for solicitada, para que Angola, e com ela o País, sejam servidos.

A uma população firme e corajosa, a um excelente conjunto de quadros e chefes, a uma tropa resistente e combativa, e à rapidez e decisão com que o Governo do País fez face à emergência em todas as frentes, devemos ter sido reduzida às proporções de hoje uma situação que nos surpreendeu e se apresentou com aspecto alarmante. Situação que auxílio exterior impúdico, em dinheiro, peritos, armas, homens e propaganda, continua mantendo ao nível de endemia latente.

Nestas circunstâncias, não pode o problema da segurança deixar de continuar a afectar a solução dos problemas de fomento económico - a que tanto desejaríamos consagrarmo-nos totalmente. E até quando? Sem dúvida até que o inimigo se convença não merecer a pena, face à nossa acção, prosseguir; até que o mundo queira crer na validade e autenticidade da solução multi-racial, a única que se opõe simultâneamente à segregação nas nações (o que quase todos devem compreender e poucos praticam) e à segregação entre nações (o que o novo racismo não compreende). Até quando? Certamente durante o tempo suficiente para que com devoção suportemos novos sacrifícios que nos sejam impostos. Com a devoção com que se serve o País onde se nasceu, que em circunstâncias como as actuais, ou se serve, ou se trai!

Agir contra o inimigo em todos os campos, combatendo especialmente o instilar da dúvida, do desânimo, em todos os escalões, e endurecendo face aos falsos profetas que se dizem esclarecidos, e que nos dividem, agora que a coesão é a condição do êxito; corporizar cada vez melhor a unidade do espaço e das populações nacionais; dar toda a relevância possível à integração multi-racial, por forma que, nas várias etnias, os bem preparados de cada Província sejam, globalmente, cada vez mais responsabilizados pela condução dos destinos do País - tal creio ser a orientação a seguir, orientação que não significa apenas durar, pois é essencialmente activa, essencialmente ofensiva.

Os problemas do fomento e suas implicações económico-sociais na actual emergência - e em face dos condicionamentos externos e internos que se criaram - não podem evidentemente conduzir-se com impaciência de quem tudo quer, considera errado tudo quanto se faz •e desacredita a técnica que possuímos - impaciência que já o seria em tempos normais. Temos de nos orientar pelo esclarecido equilíbrio dos que sabem que não nos podemos atrasar, mas que não há atraso maior do que aquele que resulta da descontinuidade, da descoordenação e da desorientação. Os objectivos deverão estar ao alcance dos recursos disponívels, e ser marcados em face destes. Não vai ser possível evidentemente fazer o que se deseja, mas apenas o que se pode.

Deixei uma Província - Cabo Verde - que constitui a mais perfeita lição de integração multi-racial, talvez, do mundo. A lição de um esforço inteiro e naturalmente português, não perturbado pelo exemplo ou acção dos vizinhos, nem pelos desvios próprios. Na sua dispersão por ilhas, na individualidade ecológica destas, na unidade política (também uma ou outra vez discutida por um pólo de interesse criado), na qualidade dos seus árduos problemas, na conjugação dos esforços de cabo-verdianos, goeses, angolanos, macaenses e europeus que ali servem em todos os sectores - Cabo Verde é bem a pequena imagem da nossa concepção multi-racial e pluri-continental; e bem merece que o seu caso seja meditado, qual ensaio-piloto pleno de êxito. Por mim, vivi-o intensamente nos últimos quatro anos.

A Vossa Excelência, Senhor Ministro, o meu profundo reconhecimento pelo prestigioso ambiente em que quis decorresse este acto. Não posso deduzir outra intenção que não seja a de Vossa Excelência me desejar ver impregnado pelo clima deste Venerando Conselho, experimentado em séculos de existência, a cujo Pensamento honrar-me-ei de ser fiel.

A Vossas Excelências que quiseram ter a bondade de me acompanhar carinhosamente nesta cerimónia, a minha gratidão.

E uma vez que, mercê das circunstâncias e da benevolência de Vossa Excelência, Senhor Ministro, me encontro rodeado dos mais lídimos representantes de todo o Ultramar, na mais autêntica expressão de unidade nacional e de decidida vontade de a preservar, seja-me consentido saudar respeitosamente Sua Excelência o Presidente da República, símbolo e garantia dessa imperecível unidade.

publicado por Henrique
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