Ultramar

ASPECTOS DA POLÍTICA ULTRAMARINA PORTUGUESA

Bethencourt Rodrigues - Situação da Guiné em 74

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No seguimento da entrada anterior, prosseguimos com «A Vitória Traída», e focamo-nos em cada província/Teatro de Operações. Começamos pela Guiné, com uma exposição do General Bethencourt Rodrigues, Comandante-Chefe e Governador d’aquela província.

Nascido no Funchal, promovido a General em 1972, foi também Ministro do Exército de 1968 a 1970. Condecorado pela Nação com a Medalha de Ouro de Valor Militar com palma, Medalha de Ouro de Serviços Distintos com palma e Grã-Cruz da Medalha de Mérito Militar.

Passado à situação de Reserva em 14 de Maio de 1974, por despacho da Junta de “Salvação” Nacional.


I. NOTA PRÉVIA

Sobre a situação na Guiné, no 1.º trimestre de 1974, apresenta-se uma sucessão de elementos de informação que, embora ligados e agrupados por uma linha de nexo, são de certo modo independentes uns dos outros.

Pareceu que esta forma, aliás de regra em relatórios militares, não prejudicaria o âmbito e extensão dos assuntos que se pretendeu focar e poderia com mais rigor satisfazer o propósito, que desde já claramente se expressa de referir elementos concretos, factos, quantificações.

Na verdade, pretendeu-se evitar a introdução de tudo que pudesse ser influenciado por apreciações subjectivas. Nesta linha, propositadamente se omitiram referências que houvessem de partir de uma base daquela natureza, como sejam opiniões sobre tendências, orientações e inclinações de grupos sociais e, muito principalmente a apreciação de factores morais.

No entanto, tem-se como certo que as guerras sempre foram e continuam a ser lutas de vontades…


II. SITUAÇÃO POLÍTICO-ECONÓMICO-SOCIAL

A situação vivida na Guiné, nos princípios de 1974, pode ser caracterizada pelos seguintes pontos:

1. O mais importante acontecimento político-social, nos três primeiros meses de 1974, foi o V Congresso do Povo, realizado de 21 de Fevereiro a 10 de Abril.

Manifestação de diálogo entre o Povo e o Governo, através do qual se conferia às populações a possibilidade de uma participação mais efectiva na vida da comunidade, o V Congresso do Povo desenvolveu-se nas suas fases regional e provincial, mobilizando alguns milhares de representantes das populações e dando lugar a 24 sessões de 4 reuniões cada, em 19 localidades da Guiné, além de Bissau.

Se a realização do Congresso, pelo quinto ano consecutivo, traduziu adesão das populações e, pelo lado da Administração, continuidade de acção e capacidade de execução, de salientar é também que trabalhos preparatórios, deslocamentos de autoridades e participantes e reuniões se processaram sem interferência do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), embora essa actividade se estendesse a todo o território da Província.


2. Ainda sem interferência do PAIGC se realizou a visita do Ministro do Ultramar, de 15 a 20 de Janeiro. O Ministro deslocou-se a Teixeira Pinto, Cacheu, Pelundo e Farim, no norte, a Nova Lamego e Bafatá (viajando de automóvel entre estas duas localidades), no leste, e a Catió e Caboxanque, no sul.


3. No princípio do ano iniciou-se a execução do Orçamento da Província, no montante de cerca de 380.000 contos, um aumento de 63 mil contos (quase 20 %) sobre o orçamento do ano anterior.

Também se deu início à execução do Plano de Empreendimentos (IV Plano de Fomento), dotado com 155.000 contos e especialmente orientado para os sectores da Educação, Saúde, Vias de comunicação, Agricultura e Melhoramentos urbanos e rurais.


4. No sector da Educação, existia uma população escolar de cerca de 61.000 alunos, com 2.200 professores.

Desta população pertenciam ao ensino primário cerca de 56.000 alunos, que se repartiam por 550 salas de estudo, onde ensinavam 1050 professores (830 agentes de ensino e 220 militares). No ciclo preparatório estavam matriculados 3800 alunos e 1700, no ensino secundário.


5. A Guiné dispunha de 1 Hospital Central, 3 Hospitais Regionais, 6 Hospitais Rurais, 50 Postos Sanitários (24 com médico e enfermeiro) e 12 Maternidades.

Os Serviços de Saúde contavam com 82 médicos (dos quais 4 civis), 2 farmacêuticos e 1 farmacêutico-analista, 360 enfermeiros e auxiliares de enfermeiro, 2 assistentes sociais e 1 auxiliar social, e 76 parteiras e auxiliares de parteira.

Em 1972 foram dadas 676.000 consultas a doentes civis, sendo 174.000 nos Serviços Provinciais de Saúde e 502.000 pelas Forças Armadas.


6. Mantinham-se em construção as estradas Jugudul-Bambadinca, Piche-Buruntuma, Catió-Cufar e Aldeia Formosa-Buba.


7. No sector privado assinala-se a entrada em laboração duma fábrica de cerveja e refrigerantes e dum parque de armazenagem e envazilhamento de gases de petróleo liquefeito, e a construção duma nova unidade hoteleira em Bissau, já em fase adiantada.


8. Problema que afectava toda a população da Guiné era o do abastecimento de arroz, base primeira da sua alimentação.

Reduzida a produção local a cerca de 50% das necessidades, por aumento do consumo e diminuição da produção, como consequência da guerra e dum certo afastamento do trabalho na terra por parte da população, em especial da mais jovem, desde fins de 71, princípios de 72, a importação passou a encontrar dificuldades crescentes, por força da escassez de cereais nos mercados mundiais e da elevação de preços, quer do produto, quer dos transportes. Assim, em fins de 1973 houve necessidade de contingentar a distribuição e de elevar o preço, tabelado, de 5$50 para 7$00, suportando embora o Governo um encargo não inferior a 2$50/kg.

Estas medidas não foram naturalmente recebidas com agrado pela população, apesar de o arroz ser vendido nos territórios vizinhos a preços muito superiores ao praticado na Guiné (Senegal 14$00 e República da Guiné 22 a 26$00) e de ter havido um aumento do preço de aquisição ao produtor local de cerca de 25%.

Para atenuar uma situação de abastecimento com tendência para se agravar, dada a progressiva retracção do mercado mundial, independentemente de custos, várias acções foram empreendidas, como a diversificação da dieta alimentar tradicional, para o que se recorreu à importação de milho e de feijão, a recuperação de bolanhas e uma intensificação do esforço para o aumento da produção, pelo apoio à cooperativização dos agricultores, distribuição de sementes de arroz seleccionadas e de adubos e apoio técnico dos Serviços Provinciais de Agricultura, além do aumento dos preços de aquisição ao produtor.


9. Por último assinala-se a contribuição das Forças Armadas para a vida da Guiné, em tarefas de promoção social, de desenvolvimento económico e de assistência, e na ocupação de posições nos quadros dos Serviços Provinciais, por falta de elementos civis que os guarnecessem.

Em Março de 1974 estavam desviados para funções exclusivamente civis 37 oficiais, 50 sargentos e 182 praças, num total de 270 militares.

Em regime de acumulação de funções militares com funções civis havia 137 militares (110 oficiais, 21 sargentos e 6 praças).

  • Dos 82 médicos em serviço na Guiné, 76 pertenciam às Forças Armadas e 2 eram seus familiares.

  • Cerca de 75% dos professores eram militares ou seus familiares.

  • As verbas dispendidas em 1973 pelas Forças Armadas no desenvolvimento sócio-económico ascenderam a cerca de 160 mil contos, assim distribuídos:

Comparticipação directa:

Saúde …………. 18.000 contos

Educação ………. 3.000

Desenvolv. rural .. 20.000

Comparticipação indirecta:

Vencim. a civis .. 61.000 contos

Transportes …… 61.000

No Plano de Empreendimentos para 1974 foi atribuída às Forças Armadas a construção de 1500 casas em 44 reordenamentos, 11 postos sanitários e 30 edifícios escolares, bem como a continuação da construção da estrada Aldeia Formosa-Buba, já em fase adiantada.

  • Até fins de 1973 as Forças Armadas haviam construído, no sector do Desenvolvimento Rural, 15 700 casas, 167 escolas, 40 postos sanitários, 56 fontenários e 3 mesquitas, e abertos 144 furos para abastecimento de água.


III. RELAÇÕES COM OS ESTADOS VIZINHOS

1. A nível oficial eram muito escassas as relações com as autoridades da República do Senegal e nulas com as da República da Guiné.

No entanto, as populações de um e outro lado cruzavam a fronteira com facilidade, para visitar familiares e para comerciar.


2. Importante era o afluxo de cidadãos dos países vizinhos aos postos sanitários das localidades de fronteira, quase exclusivamente guarnecidos por elementos das Forças Armadas. Em 1973 foram dadas cerca de 60.500 consultas àqueles elementos, que eram mesmo evacuados para o Hospital Central de Bissau, quando requerido pela necessidade de tratamento.


3. Muitas flagelações de guarnições de fronteira foram executadas de bases de fogos instaladas em território dos países vizinhos e admitia-se que nalgumas participaram unidades do Exército da República da Guiné.


IV. INIMIGO

1. O inimigo das Forças Armadas Portuguesas que combatiam na Guiné era exclusivamente constituído por elementos instruídos, equipados, armados, organizados e comandados pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), com os seus apoios internacionais. A Frente de Libertação para a Independência da Guiné (FLING) não tinha qualquer expressão no campo militar.


2. O PAIGC dispunha de inteira liberdade no Senegal e na República da Guiné e recebia total apoio dos seus Governos.

O material de guerra que utilizava provinha dos países de leste e era-lhe fornecido em quantidades vultosas; por outro lado, tratava-se de material moderno e eficiente, adequado às características da luta que se travava.

A assistência de instrutores cubanos manifestava-se abertamente e foi levada ao ponto de esses instrutores se internarem em território da Guiné, integrados em unidades combatentes (por exemplo, intercepção dum forte grupo inimigo, com elementos não-africanos, nas proximidades de Canquelifá, na primeira quinzena de Janeiro 74).

Nas suas acções militares, o PAIGC demonstrava uma certa capacidade de comando e de organização. Esta capacidade de comando revelava-se, por exemplo, no adequado balanceamento de meios para a concretização de esforços sobre sucessivos sectores da fronteira e teve evidente expressão na coordenação duma vintena de flagelações executadas em 20 de Janeiro de 1974, como que a assinalar o primeiro aniversário do assassinato de Amílcar Cabral.

Podia-se reconhecer, todavia, que a sua capacidade de apoio logístico limitava à segunda metade da época seca (Março a meados de Junho) a execução de acções militares de maior vulto, particularmente no interior do território. De facto, se a época das chuvas implicava uma diminuição drástica do número e intensidade das suas acções, principalmente por força de dificuldades de ordem logística, a primeira metade da época seca era aproveitada para a acumulação dos meios necessários para a actuação na segunda metade m e isto uma vez mais se viu confirmado no fim do primeiro trimestre de 74.


3. As facilidades oferecidas ao PAIGC pelos países vizinhos da Guiné permitiam-lhe a instalação nesses países das suas bases, dos seus campos de instrução e dos seus órgãos de comando e políticos, bem como a recepção e encaminhamento dos materiais fornecidos pelos países que o apoiaram.

Do ponto de vista operacional, porém, essas facilidades conferiam ao PAIGC a vantagem extraordinária de poder manobrar à vontade e com segurança total os seus meios, para os concentrar sobre a parte da fronteira onde decidia exercer o esforço. Além disso, sempre que a localização do objectivo e o alcance dos meios de fogo o permitiam, era no território dos países vizinhos que esses meios se instalavam, adquirindo desde logo um grau de segurança que não existiria se a instalação se fizesse em território da Guiné.


4. A possibilidade de o inimigo manobrar os seus meios em total segurança para os concentrar em áreas de sua livre escolha e actuar a partir delas adquiria particular valor na Guiné, por ser aberta toda a fronteira com os países vizinhos: nenhum obstáculo natural criava dificuldades à penetração e, no leste, o inimigo dispunha até de duas secções de fronteira em esquadro.

Ainda do ponto de vista terreno, e em relação ao inimigo, assinala-se:

  • a existência no interior da Guiné, na transição da região litoral para a interior, de áreas cujas características topográficas (densidade de vegetação, extensões pantanosas e outros obstáculos naturais, falta de vias de comunicação) põem sérias dificuldades à penetração, em especial por unidades militares regulares. Algumas destas áreas constituíram, quase desde o início da subversão, zonas de refugio de guerrilheiros, onde estes subsistiam com elementos da população, para ali levados voluntariamente ou à força, e donde por vezes saíam para fazer emboscadas, para se abastecer nas vizinhanças ou nos Estados vizinhos ou para a rendição de combatentes. Foram estas zonas de refúgio que alguns jornalistas estrangeiros visitaram e nelas o PAIGC instalou o que chamava os seus hospitais, as suas escolas, as suas lojas comunitárias e os seus órgãos primários de administração;

  • a curta distância a que estas zonas de refúgio se encontram da fronteira, dada a reduzida área da Guiné. Esta circunstância, aliada a um profundo conhecimento do terreno por parte dos guerrilheiros, facilitava a ligação com os países vizinhos e dificultava as acções de intercepção pelas nossas Forças.

- A penetração nas zonas de refúgio, muitas vezes realizada pelas nossas Forças, com resultados diversos, mas sempre causando grande perturbação no dispositivo inimigo, exigia operações de certa envergadura, pelos efectivos e meios empenhados e pelos problemas de apoio logístico que suscitavam.

- Pode afirmar-se com segurança que o somatório das áreas das zonas de refúgio, nem de perto nem de longe, atingia os dois terços da Guiné que o PAIGC reivindicava como superfície da «área libertada». A afirmação é válida mesmo se se considerar a região de Madina do Boé, que há anos deixara de ter guarnição militar, dadas as suas características de região desértica e inóspita e as dificuldades de apoio logístico, o que não impedia que sobre ela se exercesse vigilância aérea e de vez em quando fosse percorrida por patrulhas de reconhecimento.


5. O ponto mais alto da actividade militar do PAIGC verificou-se no 2.° trimestre de 1973, com o emprego de novos e eficientes foguetes terra-ar, um substancial incremento do número e eficácia de outros meios de fogo• os violentos e prolongados ataques a Guidage, no norte, a Guileje, no sul. Depois disso a acção do inimigo reduziu-se às proporções anteriores, para apresentar um nítido recrudescimento a partir de Março de 74. o que correspondia, como já se referiu, ao que poderemos chamar «o ciclo de trabalho» do inimigo.

Nesta altura (Março de 74), o esforço inimigo exercia-se sobre as guarnições militares do canto nordeste da Guiné (região de Canquelifá) e do sul, em especial Jemberém. Gadamel e Bedanda, materializando-se por:

  • maciças, prolongadas e sucessivas flagelações, conseguindo por vezes tiros ajustados que, se não produziam baixas em números significativos, causavam estragos apreciáreis, particularmente nas tabancas construídas junto dos aquartelamentos, desgastavam física e psicologicamente as guarnições militares e intimidavam as populações: as flagelações potentes e duradouras eram sempre realizadas de noite, entre o pôr do sol e as primeiras horas da madrugada, como norma com a lua de quarto crescente a quarto minguante, dispersando-se em seguida as bases de fogos e ocultando-se o material e o pessoal;

  • conjugação das flagelações com a implantação de minas nos itinerários de acesso às guarnições atacadas, eventualmente associadas a emboscadas, numa tentativa de isolamento daquelas guarnições, que o inimigo nunca logrou obter;

  • acções directas sobre tabancas isoladas, incendiando-as e raptando elementos da população.

Apesar da intensidade e recorrência das flagelações (no mês de Março Canquelifá foi flagelada 7 vezes, Bedanda 5, Gadamel 12, Jemberém 6, Caboxanque 11) em caso algum se verificaram tentativas de ocupação dos objectivos atacados e, quando foi possível às Forças Nacionais executarem acções dinâmicas e directas sobre as bases de fogos, elas conduziram sempre ao levantamento destas, à dispersão do pessoal que as defendia e guarnecia e sua subsequente recolha ao abrigo dos territórios vizinhos. Duas interpretações se podem adiantar: ou o inimigo pretendia apenas obter efeito moral sobre os combatentes, com as suas poderosas e frequentes acções de martelamento, para eventualmente conseguir por esta via o abandono das localidades ocupadas, ou reconhecia-se incapacidade para, em luta próxima, abordar e assaltar e, seguidamente, manter a ocupação.

Quanto ao aproveitamento exclusivo das noites com luar para a execução das flagelações, traduzia a preocupação de evitar acções aéreas de ataque ao solo e de observação para regulação do tiro da nossa artilharia, bem como obter uma mais eficaz protecção contra acções directas das nossas Forças sobre as bases de fogos.

A acção sobre as populações tinha em vista dispersá-las, pela insegurança criada e pela demonstração duma superioridade de força, provocando o seu desequilíbrio a favor do PAIGC, e ainda a obtenção de espaços vazios por onde as suas forças se pudessem movimentar livremente.

Num caso e noutro (flagelações e acção directa sobre as populações) parece que o inimigo pretendia concretizar por factos a sua propaganda e a sua manobra psicológica, justificando de qualquer modo os vultosos • variados apoios que vinha recebendo.


6. No interior do território, a actividade inimiga mantinha o seu padrão habitual de emboscadas, implantação de minas, uma ou outra curta flagelação contra aquartelamentos e acções sobre a população, especialmente raptos, quando as pessoas se deslocaram ou trabalhavam nas lavras. Não era aí, nitidamente, que o inimigo pretendia exercer o esforço.

Bissau, apesar dos seus problemas de cidade em permanente e pouco controlado crescimento, da situação de desemprego de parte da população e da concentração dos principais órgãos administrativos, de comando e de apoio logístico às tropas e à população, manteve-se praticamente ao abrigo de acções do inimigo. Assinala-se apenas uma acção sobre as instalações da Força Aérea em Bissalanca, em 73, e a explosão duma granada num café da cidade, em 26 de Fevereiro de 74, responsável por um morto e 63 feridos. Em 22 de Fevereiro verificou-se o rebentamento duma bomba no Quartel-General do Comando Territorial Independente da Guiné, que provocou estragos materiais, havendo indícios de ter sido colocada por activistas políticos da Metrópole.


7. O aparecimento na Guiné, em Março de 73, de novos e eficientes foguetes terra-ar, com total efeito de surpresa, determinou alterações na conduta das operações, incluindo o apoio logístico, por força das contra-medidas adoptadas.

A eficácia destas contra-medidas, embora implicando certa redução da nossa liberdade de acção aérea, com repercussões na manobra militar, ficou plenamente provada, pois conseguiram neutralizar quase totalmente aquelas armas: após o período inicial do seu emprego, durante o qual algumas aeronaves foram atingidas, só em 31 de Janeiro de 1974 voltou a ser abatido um avião, cujo piloto pôde ejectar-se e ser recuperado ileso, aliás com a colaboração e apoio da população da área.


V. FORÇAS ARMADAS PORTUGUESAS

1. As Forças Nacionais eram constituídas por:

  • Órgãos de comando e de apoio logístico, unidades e meios navais da Armada; algumas unidades de Fuzileiros Navais eram integradas por pessoal voluntário da Guiné, com enquadramento europeu:

  • Órgãos de comando e de apoio logístico e unidades do Exército; cerca de 20% das unidades combatentes eram de pessoal recrutado na Guiné e em algumas todo o pessoal era guinéu, incluindo o enquadramento;

  • Órgãos de comando e de apoio logístico e unidades da Força Aérea;

  • Unidades de milícias, integralmente com pessoal da Guiné.


2. Assinala-se que o efectivo em pessoal armado era constituído, em percentagem superior a 50%, por elementos naturais da Guiné.


3. O dispositivo militar, com os principais órgãos de comando e de apoio logístico e os principais meios de intervenção em Bissau, cobria todo o território da Guiné, de Cuntima ou Saré Bacar, no norte, a Cameconde, no sul, de Varela e Catió, no oeste, a Buruntuma, no leste, com excepção de Madina do Boé, como já se referiu.

Concretamente, traduzia-se na existência de 225 guarnições militares, sendo 72 ocupadas exclusivamente por tropas do Exército e Armada, 82 por tropas do Exército e Armada e unidades de milícias e 71 só por unidades de milícias.

Em grande parte imposto por uma progressiva adaptação do esforço militar à manobra sócio-económica que vinha sendo conduzida na Guiné, algumas vezes sacrificando a devida ponderação de todos os factores ao imperativo de execução urgente, este dispositivo apresentava inconvenientes de dispersão e vulnerabilidade que se tornava necessário corrigir. Por isso haviam sido iniciados estudos para a sua remodelação, com vista a um melhor ajustamento à fase em curso dos programas de promoção sócio-económica e a uma reorientação da actividade operacional das Forças Nacionais.


4. O material de que dispunham as Forças Nacionais era, em alguns casos, qualitativamente inferior ao empregado pelo inimigo: referem-se, por exemplo, os materiais de artilharia, os morteiros e as temíveis armas que são os R.P.G. 2 e 7.

Os meios aéreos também não eram os mais adequados ao tipo de apoio que se pretendia e de que se carecia, sobretudo depois do aparecimento dos foguetes Strella [ndab; sic, a designação correcta, porém, parece ser «Strela»; mais precisamente 9K32 “Strela-2”, designado pela OTAN como SA-7 Grail].


VI. CONCLUSÕES

1. Em paralelo com a guerra, e naturalmente sofrendo condicionamentos por ela postos, desenvolvia-se a vida política, económica e social da Guiné.

Embora sob a influência daqueles condicionamentos, que em maior ou menor grau, punham questões de segurança de pessoas e bens, ampliavam margens de incerteza nas previsões, criavam distorções nos mecanismos de gestão, afectavam relações sociais:

  • funcionavam os órgãos de governo próprio;

  • a rede administrativa cobria todo o território;

  • os órgãos de administração local exerciam as suas funções de gestão;

  • os serviços de saúde e de educação cumpriam as missões próprias;

  • as comunicações de transporte e de relação asseguravam os contactos entre localidades, permitiam os deslocamentos de pessoas e garantiam os circuitos de comercialização, no interior e para o exterior;

  • estavam em curso obras de fomento nos sectores da educação, saúde, vias de comunicação, agricultura e melhoramentos rurais e urbanos;

  • a produção agrícola satisfazia parte das necessidades da população;

  • cobravam-se impostos:

  • cumpria-se um orçamento.

De fins de Fevereiro a princípios de Abril realizara-se, pelo quinto ano consecutivo, o Congresso do Povo, nas suas fases regional e provincial, envolvendo a participação de alguns milhares de representantes da população e dezenas de reuniões em diversas localidades.


2. A contribuição das Forças Armadas era vultosa e decisiva, incidindo praticamente sobre todos os sectores da vida da Província.

Militares, em regime de ocupação exclusiva ou em acumulação, ocupavam posições nos Serviços Provinciais, responsabilizavam-se pela assistência sanitária, exerciam funções docentes, empenhavam-se na execução de melhoramentos rurais e urbanos, auxiliaram a gestão das comunidades, executavam trabalhos de mão-de-obra especializada, criaram postos de trabalho, dinamizavam a economia, impulsionavam e enquadraram iniciativas nos mais diversos campos.

Tinham parte destacada e relevante na comunidade civil e eram elemento essencial da sua promoção e desenvolvimento.


3. O Teatro de Operações da Guiné tinha as seguintes características principais, algumas das quais se não podiam encontrar nos Teatros de Operações de Angola ou de Moçambique:

  • Envolvimento por Estados, declarada e nitidamente, hostis, onde as forças inimigas dispunham de todo o apoio e de total liberdade de acção;

  • Extensa fronteira terrestre (700 km), aberta em toda a sua dimensão, dum extremo ao outro; da conjugação deste factor com o antecedente resultava, para o inimigo, facilidade de penetração no território da Guiné e de ataque às guarnições de fronteira e, para as Forças Nacionais, acrescida vulnerabilidade destas guarnições e dispersão de esforços na vigilãncia da faixa fronteiriça:

  • Reduzida superfície, que assim não punha ao inimigo, por isso e pelo apoio recebido nos países vizinhos, problemas de alongamento das suas linhas de comunicações, de dispersão de efectivos e de complexidades logísticas:

  • Dos pontos de vista de comando, de manobra e de apoio logístico, com centralização em Bissau, compartimentação, por obstáculos naturais, em 3 zonas:

- a norte do Rio Geba

- entre os Rios Geba e Corubal

- a sul destes dois Rios

Esta compartimentação do Teatro de Operações por rios de envergadura, nenhum deles com pontes entre as suas margens e com a navegabilidade condicionada, em absoluto, pelo regime de marés, implicava fortes limitações à acção de comando, ao deslocamento de forças e ao apoio logístico, e lançava um pesado ónus sobre os meios navais e aéreos;

  • Clima e terreno não favoráveis às operações, em particular na metade ocidental do território, com as suas quase impenetráveis zonas de mangal e densas florestas tropicais, e com as marés a penetrarem diariamente pela terra dentro, alagando as terras e causando nos rios desníveis de metros:

  • Um mosaico de etnias, mais de trinta, diferenciadas entre si, com características e organizações específicas, seus problemas, seus anseios próprios e suas rivalidades.

Por outro lado, o empenhamento das unidades militares na manobra sócio-económica conduzira a uma inconveniente mistura da tropa com a população, que manifestava toda a sua acuidade quando de acções por parte do inimigo.


4. O inimigo evoluíra progressiva e significativamente no seu conceito geral de manobra (concentração de forças sobre objectivos seleccionados ao longo da fronteira, procurando conjugar concentrações maciças de fogos com acções de isolamento dos objectivos atacados) e no seu potencial militar, tanto humano como material, neste dispondo até de superioridade em algumas armas.

O inimigo punha, portanto, uma ameaça séria sobre as guarnições de fronteira, em particular daquelas com mais difícil acesso pelas Forças Nacionais, para reforço e reabastecimento.


5. As características naturais do Teatro de Operações, a evolução do inimigo e a sua liberdade de acção do outro lado da fronteira aliadas a, por parte das Forças Nacionais, reduzidas forças de intervenção e dificuldades de manobra de meios, limitaram em grau considerável a capacidade de iniciativa do Comando das Forças Armadas Portuguesas.

A necessidade de manter forças disponíveis para o eventual reforço, em tempo oportuno, dum objectivo seleccionado pelo inimigo constituía uma preocupação permanente do Comando, aliás traduzida em progressivo aumento das forças em reserva, e um condicionamento pesado da sua liberdade de manobra. Por outro lado, porém, o empenhamento de forças de intervenção nos sectores em que o inimigo decidira fazer o esforço, aumentava a probabilidade de actuação contra forças que, como norma, se esvaíam rapidamente e contribuía assim para a desarticulação do sistema adverso.


6. A listagem das características principais do Teatro de Operações da Guiné, feita no n.º 3, só por si conduz naturalmente à noção da grande dificuldade duma acção militar em tal teatro de operações.

Se a essa dificuldade se adicionarem as que resultavam de se defrontar um inimigo com as características que foram referidas, facilmente se deduz a gravidade da situação militar que se vivia na Guiné no 1.º trimestre de 1974.

Era uma situação extremamente exigente para os Comandos e também extremamente exigente e muito dura para as tropas, a requerer em curto prazo a adopção de medidas de âmbito local e no plano da Defesa Nacional, umas em planeamento ou já planeadas e outras em vias de execução.


7. No campo rigoroso do concreto, nega-se frontalmente a veracidade de algumas afirmações que sobre a Guiné têm sido produzidas.

Nomeadamente, aponta-se como rotundamente falso que, no 1.º trimestre de 74, dois terços do território estivessem sob o domínio do PAIGC; que as tropas portuguesas estivessem entrincheiradas em algumas cidades e algumas bases; que as Forças Nacionais estivessem acantonadas na capital e em mais dois ou três pontos.

Pelo contrário, afirma-se sem receio de desmentido, que as tropas portuguesas tinham acesso a quase todos os pontos do território, com medidas de segurança de intensidade variável; que os comboios auto, de reabastecimento, circulavam pelas estradas; as tropas se movimentavam em campo aberto, com maiores ou menores dificuldades, efectivos mais ou menos numerosos, apoios tácticos mais ou menos desenvolvidos; que o dispositivo militar cobria todo o território; que as Forças Nacionais ocupavam, com guarnições militares ou de milícias, 225 localidades.


8. A guerra estava militarmente ganha? Evidentemente que não. Nunca ninguém o disse, nem pretendeu fazê-lo crer.

A guerra, na Guiné, «estava perdida no campo militar», como se tem afirmado com alguma frequência?

Estávamos, na Guiné. «à beira dum desonroso colapso militar», como também se declarou?

A situação na Guiné, no 1.° trimestre de 1974, concedia base àquela primeira afirmação ou apontava irremediavelmente para a segunda?

Estas «notas», no rigor da sua objectividade, poderão ser, julga-se, elemento de informação útil para quem procure obter resposta a estas questões.

Certo é que as guerras sempre foram e continuarão a ser lutas de vontades… e não só das vontades dos combatentes.

Carta da Guine

publicado por Henrique
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